domingo, 25 de dezembro de 2011

Neste momento não sei o que dizer, mas sei o que sinto, sinto que falta algo, faltas tu, uma parte de mim foi-se, e eu fiquei aqui, sozinho e sentado em cima da cama com a cabeça sobre os braços a olhar para a rua, enquanto te vais embora... de repente começou a chover, até os céus percebem que estou triste. Será normal?! É assim tão óbvio que não imagino a minha vida sem ti?! Que quero estar contigo?!
as 10:05, num dia quente, numa sexta-feira, foi quando decidiste ir embora,
mas enfim, a vida é assim, foste embora, vi o táxi partir como um cão quando fica sozinho em casa, abandonado enquanto os seus donos vão de férias, olhando tristemente para o carro enquanto este se vai embora, até que desapareça de vista.
Enquanto olho a minha volta, o quarto ficou mais escuro, com menos coisas, menos luz, olho para o telefone, que eu usei para te telefonar quando estavas na cozinha só para te dizer amo-te, o comando da televisão pelo qual nos dois brigávamos inocentemente só para mudarmos de canal, os quadros na parede com fotos nossas, reparei na foto daquela vez que fomos a pizzaria, estavas tão linda, com a tua t-shirt e os teus jeans justos, e o teu cabelo solto com um gorro a cobri-lo, parecíamos tão felizes, ainda me lembro no cinema daquela vez que estávamos só nos dois a ver um filme romântico, de repente deitaste a cabeça no meu ombro. E eu pus o meu braço a tua volta, nem liguei ao filme. Simplesmente fechei os olhos e imaginei um filme só nosso, foi uma noite linda... decidi sair, vou tomar café, talvez me esqueça disto tudo, olho mais uma vez para o quarto que, por sua vez fica cada vez mais escuro. Ao abrir a porta sinto uma sensação única, sinto me bem, e sinto luz a bater na minha cara apesar de estar a chover, e então que acordo, e reparo que estou deitado na cama, olho para o relógio, são 09:55 de sexta-feira, e estranhamente, esta demasiado calor para um dia de inverno.

No entanto reparo que as tuas malas estão prontas, como se fosses de viagem, mas ignoro, pensando que estás a fazer limpeza ou algo assim, levanto-me visto-me como faço todos os dias de manha, mas ao descer para a sala de estar reparo que tu estás a tirar tudo o que é teu, estás a tentar tirar todas as memórias enquanto me ignoras, todos os momentos que passamos, enquanto passas por mim, ignorando-me enquanto uma lágrima desce pelo teu rosto, enquanto te vejo sair da minha vida, sair do meu coração, estou congelado, como se estivessem a agarrar-me e obrigar-me ver tudo isto, ver a destruição dos meus mais profundos sentimentos, passados 10 minutos acabas de arrumar as tuas malas, enquanto eu estou aqui congelado, em calções e t-shirt, a olhar para ti enquanto tu olhas-me nos olhos a espera duma palavra, dum abraço, dum beijo quem sabe? Mas estou completamente paralisado, não tenho reacção para o facto de quem tem o meu coração nas mãos o querer partir, talvez por isso não me consiga mexer, talvez por apenas saber que nunca voltarás a olhar para mim da mesma maneira que antes…

O taxista ajuda-te com as malas logo depois de chegares ao pé do táxi, eu simplesmente corro para o quarto, e sento-me na cama com a cabeça em cima dos braços, e vejo-te partir no táxi, até que desapareças de vista, entretanto começa a chover, tenho a estranha sensação de Dejá vu, como se já tivesse passado por tudo isto, o quarto ficou mais escuro desde que te foste embora, cada minuto parece uma eternidade, o lado da cama onde dormias está feito, a cama está fria, de repente o alarme do telemóvel toca, são 10:20 em ponto, chove lá fora, o quarto está escuro, e no meu telemóvel toca a nossa música, ‘You’ da nossa banda preferida, ‘Switchfoot’, curiosamente, só me apetece acordar, mas esqueci-me do pequeno facto de que já estou acordado, em cerca de 10 minutos vêem-me ao pensamento as memórias de 3 anos, não consigo lidar mais com isto neste quarto escuro, sozinho, sem ti…

São 10:26, vou tomar café talvez esqueça isto tudo, visto-me, pela primeira vez estou-me a vestir, sem ti atrás de mim, a brincar, a fazer cócegas, a ajeitar o meu casaco.

Ainda me lembro da maneira como me despenteavas, e da maneira como me encharcavas com perfume e fugias a rir, mas isso são memórias, agora tenho de abstrair-me….

São 10:38, estou a chegar ao café, vou matar o meu vicio, sim, sou viciado em cafeína, embora já tenha bebido mais, ainda amo café, mas há algo diferente no café hoje, para além de estar sentado sozinho, o café parece mais vazio, e mais escuro, e as pessoas parecem mais solitárias, até que chega a minha melhor amiga, já não a via há semanas, o que será que mudou nela?.. ela parece diferente mas não sei o que está diferente… entretanto ela começa a falar comigo, eu falo-lhe sobre ti, ela muda logo de expressão e diz que se eu precisar ela faz o que puder para me ajudar, isso põe-me mais deprimido, e eu nesse mesmo instante começo, outra vez a pensar em ti, e de repente tudo o que me rodeia torna-se insignificante, as vozes, o café, as cores tornam-se mais escuras até que acabam por se transformar em escuridão, tudo desaparece diante dos meus próprios olhos, consigo ver, mas não consigo ouvir, estou a gritar por dentro, a bater em mim mesmo, a gritar para dizer algo, alguma palavra a pedir ajuda, a dizer “sim, estou a sofrer e muito, e preciso que me consoles”, mas não, nada sai sem ser o silêncio que a faz ir embora, tu tens culpa, parte pelo menos, se não te fosses embora eu não estaria assim.

O relógio marca 12:52, e o tempo demora a passar, ao vaguear pela casa eu vejo-nos a correr dum lado para outro, tu em roupa interior, a rir enquanto foges de mim com o controlo remoto da TV, na sala, sentados no sofá a comer pipocas aconchegados ao pé da lareira, a ver um filme, ou então na cozinha, a cozinhar algo que de certeza que não ia saber lá muito bem, à medida que o tempo passa vejo-me cada vez mais louco, vejo cada vez mais os fantasmas do nosso passado, passado esse que acabou há menos de 4 horas atrás, vou ver o que está a dar na TV, talvez consiga me distrair da tua assombração que não me sai da cabeça.

Adormeci no sofá, ao acordar, vejo uma figura desfocada, depois de esfregar os olhos vejo que és tu, mas e medida que me levanto para te abraçar, tu evaporas-te, acordo, foi apenas um sonho, adormeci a ver TV, já são horas de jantar, mas não quero ir a cozinha fazer nada para comer, porque ia ser demasiado doloroso, mais memórias não e o que eu preciso neste momento, vou para a cama, já são 10 horas da noite, com sorte consigo sobreviver esta noite sem pesadelos nem memorias de nós dois….

Acordo com os raios de sol a baterem me na cara, dormi demasiado, são 11:48 e já sobrevivi um dia sem ti, ligo o DVD a ver o que está lá dentro, está lá o nosso filme, aquele que nos sentamos frente a frente a fazer perguntas ao calhas um ao outro, “diz o teu nome completo, idade, data de nascimento e o que gostas mais de fazer” perguntas tu, até que eu respondo,”Bruno Miguel Fernandes Gomes, tenho 23 anos, nasci em 1988 no dia 23 de Janeiro, e gosto de passar serões contigo depois dos treinos de futebol” agora que penso bem tu não precisavas de ouvir aquilo tudo, eram coisas que já sabias, quem sabe precisavas de as ouvir para sentires segurança, sentires conforto, até que oiço a minha pergunta “amas-me?”, e tu ficas perplexa como se um milhão de pensamentos te percorressem a mente naqueles 2 segundos que demoraste a responder, “Claro que sim, não quero que te afastes de mim”

Desliguei o Leitor de DVD, não consigo olhar mais para aquele vídeo enquanto não estiveres comigo outra vez, já é 12:00, daqui a duas horas tenho de ir treinar, não me apetece, estou demasiado em baixo para isso, mas talvez seja uma boa maneira de me abstrair, e concentrar a minha raiva, frustração, e a minha depressão noutra coisa, até que o telefone toca, e eu não acredito nos meus olhos, és tu que estás a telefonar!

Eu atendo mas quando te oiço, de uma certa maneira não fico surpreendido, apenas esqueces-te de alguns documentos.

14:00, chego ao campo de treinos, o treinador de imediato começa a dar ordens, a dizer onde devemos treinar e o que devemos fazer, começo a correr a volta do campo, mal oiço o que o treinador diz, a voz dele começou a ficar desfocada, como se eu tapasse os ouvidos, excepto que as minhas mãos não estavam a tapar nada, de repente começo a ver mal, e a ouvir mal, caio no chão, e vejo todos os meus colegas de equipa a correrem para mim em pânico, vejo o treinador a chamar o médico, foi a ultima coisa que vi, dou por mim sentado a beira da cama, não vejo nada lá fora, apenas um nevoeiro intenso, só vejo branco no lugar onde deveria estar a rua, os carros a passar, e as pessoas, não vejo mais do que uma neblina branca que consome tudo, pouco a pouco, olho em meu redor, mal consigo distinguir os diferentes objectos dentro do quarto, apenas consigo ver a parede a minha frente com fotos nossas, daquela vez que fomos ao jardim zoológico, mal olho para a foto, a foto começa a mexer-se, todas as nossas fotos estão a mexer-se, viro-me para a porta, preciso de sair daqui, até que nos vejo os dois a entrar no quarto, tu com jeans justos e um top azul claro, e eu de calções e t-shirt, não consigo olhar, não consigo aguentar, e demasiado, e demasiada dor, até que o quarto começa a desmoronar-se a minha volta, tudo começa a ficar desfocado e tudo começa a desfazer-se em pó, nós os dois na cama deitados aos beijos, os teus pés, começam a desfazer-se, passado alguns segundos tu desfazes-te completamente, e o eu em cima da cama fica a olhar para mim mesmo, de repente tudo fica negro, acordo na cama da enfermaria, com a equipa toda a minha volta, e todos a chamar o meu nome, a dizer “acorda pá” e “que se passou meu?”, e eu fico lá deitado a olha-los nos olhos, sem conseguir responder, até que enfim o fisioterapeuta tira a equipa toda de lá para fora, e vem falar comigo “meu rapaz, tens-te alimentado correctamente?”, houve uma pausa constrangedora, um silêncio tão profundo, que parecia que falava, até que respondi baixinho, “não” o fisioterapeuta ficou irritado comigo, irritado no sentido de preocupação, ele disse-me que tenho de me alimentar correctamente, e de imediato mandou buscar alguma comida, ele veio falar comigo depois de eu comer, ele disse que eu desmaiei, devido a má alimentação ou quem sabe desgaste físico, ou talvez devido algum problema mental, portanto ele decidiu marcar exames, para verificar o estado de saúde em que me encontro.

São 17:51, já cheguei a casa, estava prestes a chamar-te e dizer “querida cheguei!”, até que me apercebi que não estava ninguém em casa, é a força do habito acho eu, hábitos esses a que tu me habituaste, que se fundiram comigo, desde o momento em que tu entraste na minha vida, a casa ainda continua escura, apesar de estar um dia de sol la fora, e apesar das janelas estarem com as cortinas abertas, oiço um carro a chegar, e durante os dois segundos que demoro a virar-me para a porta, desejo que sejas tu, mas ao mesmo tempo não quero por nada que sejas tu, porque te ver sair outra vez pela mesma porta que saíste da última vez é a ultima coisa que quero que aconteça.

mas oiço bateres a porta, sei que és tu, mas não me consigo mexer, até que tu abres a porta, e entras como se nada fosse, como se ainda estivesses comigo, e naquele segundo em que demoras a entrar e não dizes nada, durante esse segundo todas as memórias más desapareceram, toda a dor, todo o sofrimento desapareceu, até que disseste, “não te preocupes, não vou demorar, só vou buscar uns documentos que me esqueci”, foi como um balde de água fria, foi como quando estamos quase a adormecer e de repente acordamos com o mínimo ruído, enquanto tu sobes as escadas, eu vou a varanda olhar para o céu, para não ter de te ver a ir embora outra vez, até que tu vens ter comigo, e ficas a olhar para mim, como se quisesses dizer algo, vejo uma lágrima quase a cair dos teus olhos, quero limpá-la mas não consigo mexer-me, a minha mente está a funcionar a velocidade da luz, até que oiço, “desculpa” de repente tudo na minha mente desaparece ficando apenas esperança e receio, mas tu continuas a olhar para mim a espera de alguma coisa, e eu congelado, aqui a tua frente sem saber o quê, até que começa a ficar frio, tu abraças-me e vais te embora, e o frio aumenta cada vez mais, o vento sopra cada vez mais forte, eu fecho as janelas, e as cortinas, e sento-me na sala, com a lareira acesa, no sofá, a olhar para uma foto nossa, já passaram 3 horas desde que te foste embora, outra vez, vou a cozinha preparar uma sanduíche, e um copo com água, para beber, mas até entrar na cozinha magoa.

Quando entro, vejo-te encostada no balcão, a olhar para mim, até que me puxas para ti, e eu beijo-te apaixonadamente, enquanto o jantar queima, até ficamos a olhar um para o outro, e apercebo-me que estou a ver fantasmas, os nossos fantasmas de novo, saio da cozinha com uma sanduíche e um copo com água, mas a medida que olho para o copo, mais vejo o teu reflexo na água, bebo-o de uma só vez, e como a sanduíche o mais depressa que posso, para não me lembrar das brincadeiras que fazias com a farinha, quando a atiravas a minha cara e fugias a rir, até que eu te apanhava e punha-te uma pitada de açúcar nos nariz e depois beijava-te, vou ver o que está a dar na TV pode ser que consiga me distrair disto.

Acordo, olho para o relógio, passaram 4 horas, é cerca de uma da manhã e adormeci no sofá outra vez, mas prefiro adormecer no sofá visto que, a cama está demasiado fria e escura desde que te foste embora, até as flores parecem mais mortas, o céu parece mais morto, a casa parece cada vez mais escura, a luz da lareira era mais forte quando estavas aqui comigo.

Eu vou dormir aqui mesmo no sofá, ao menos tenho a lareira a aquecer-me, fecho os olhos, mas só te vejo a ti, não sei o que fazer mais, para parar esta loucura!

Foi uma noite esquisita, apesar de me lembrar perfeitamente do meu sonho, não o consigo descrever, sei que aparecias nele, quase sempre, parecia que te estava a sentir ao meu lado enquanto dormia, a lareira apagou-se enquanto eu dormia, sinto o cheiro das cinzas, vejo os troncos queimados, como as memórias de algo que era lindo.

Dormi de mais outra vez, já passa das 11 e estou com fome, vou a cozinha buscar algo para comer, mas reparei na mensagem que me deixaste no telemóvel, “sei que querias, mas não conseguiste dizer nada ontem, também já esperava que não conseguisses, desculpa ter aparecido assim sem avisar.”Nesse momento senti uma dor no peito, não consigo descrever, não sei se doía como facas, balas ou veneno, sei apenas que magoava, mas acho que a dor era mais mental do que física, pois de acordo com o fisioterapeuta estou de perfeita saúde, apenas tenho de me alimentar, estou aqui sentado no balcão da cozinha a divagar já a 20 minutos, não sei o que se passa comigo, Ate a maneira como suspiro me faz lembrar de ti, de repente apercebo-me, já passaram 20 minutos, tenho de comer qualquer coisa, sento-me à mesa com uma sandes de queijo numa mão e uma chávena na outra, enquanto vejo o café arrefecer, um fio fino de vapor a sair da chávena branca com desenhos de flores negras.

De repente, do nada eu começo a divagar, começo a sonhar acordado, como se uma neblina me cobrisse os olhos, como se estivesse hipnotizado, e lembro-me de ti, novamente para minha infelicidade, quando precisei de ti estavas sempre lá, quando se toca a ti nada se pode comparar, estou farto de viver nesta cidade cansada, eras o que me mantinha mentalmente são, eras o que me mantinha emocionalmente bem, agora sou apenas um conjunto de destroços, como um barco quando naufraga, de repente ao olhar para a janela vejo dois pássaros juntos, a saltar dum lado para outro, sempre lado a lado, dou duas dentadas na sanduíche, e bebo um gole de café e vou tomar um duche, já não aguento mais isto.

Depois do duche sento-me no ateliê, a criatividade está a fluir como nunca antes, acho que estar miserável ajuda, começo a rir para mim mesmo, da minha própria miséria, estou eu aqui, a escrever e a desenhar, pensando em ti, sabendo que te foste embora, mas por alguma razão curiosa, apetece-me rir, à gargalhada, alto para que todo o mundo oiça, para que toda a gente saiba o quão louco eu estou, mas enfim, estou a escrever à mais de uma hora, está na hora de ir para o treino, o treinador disse que me ia pôr a jogar a defesa direito, vamos ver como isso resulta.

Já cheguei ao campo, e estacionei o meu carro, a primeira coisa que fazem é me perguntar se estou bem, o que tinha e coisas assim, “nada de especial” disse eu, espantado com a camaradagem que estavam a demonstrar, visto que nunca antes o tinham feito, o jogo começa, o treinador berra connosco, diz-me para subir no terreno quando a equipa ataca, o Miguelito iria compensar, oiço-o gritar comigo a dizer “sobe Bruno!” e “dá apoio ao ataque!” então o central toca para mim, eu corro como um louco, como se não houvesse amanhã, finto um adversário, e outro, até que cruzo, não sei muito bem o que aconteceu, sei que vi a bola dentro das redes, estávamos a vencer por 3-0 contra as reservas, é então que arranquei na linha, cortei pelo meio, fintei 4 adversários, rematei colocado ao ângulo direito, e entrou! Até o treinador se levantou do banco para aplaudir.

O treino eventualmente chega ao fim, o treinador disse que estava contente comigo, que eu tinha feito um bom jogo e que continuasse a trabalhar assim, enquanto o olho espantado, só consigo perguntar baixinho “tem a certeza mister?”, até que ele responde, “claro meu rapaz, olha que já fui olheiro, sei do que estou a falar, agora vai-te lá embora, o treino já acabou vemo-nos amanha.”Ainda perplexo, sento-me no carro, sem reacção, a maioria dos rapazes ficariam contentes com os elogios do seu treinador, mas eu não, simplesmente congelei com o espanto.

Foi uma longa viagem até casa, de repente começou a chover, e o vento sopra mais forte, acho que vou parar para tomar café, assim que entro no café noto que algo está diferente, apesar de estar a chover lá fora, aqui dentro está quente, e acolhedor, sento-me na mesma mesa de sempre, a do canto, passados alguns minutos oiço alguém ao que parece a ser repreendido, não liguei, depois de algum tempo oiço uma voz a perguntar “lamento fazê-lo esperar o que lhe posso servir?” a rapariga parecia embaraçada, pedi um café normal, ela anotou e foi-se embora, mas voltou a demorar a trazer-me o café, até que quando ela chegou com o café, fiquei intrigado, e perguntei “porque é que está a demorar tanto?”, ela ficou com uma expressão triste, e embaraçada, a olhar para mim sem saber o que dizer, ficamos a olhar um para o outro, até que ela perde o equilíbrio, e entorna o café na mesa, e em mim também, eu levanto-me, enquanto me limpo o patrão dela aparece e grita com ela, e despede-a, digo-lhe “não a despeça, foi um acidente”, mas sem efeito, então foi ai que sai do café, limpei-me, passados 10 minutos notei que, a rapariga estava a porta do café, pensativa, e quieta, parecia triste, fiquei com pena dela.

Paro o carro mesmo à sua frente, “quer boleia para algum lado?”, ela ainda perplexa, tal como estava antes no interior do café, então que diz num tom baixinho e com a cabeça baixa “sim, se não for muito incómodo”, entretanto enquanto conduzo ela diz baixinho para mim, “Sou a Helena, muito prazer em conhece-lo e obrigado por me defender, ali atrás no café”, então eu perguntei onde ela vive, e para minha surpresa, quando lá chegamos, reparei que é mesmo no mesmo quarteirão do que eu, assim que ela saiu do carro, sorriu, despediu-se e foi-se embora.

Nos três dias seguintes sempre que tinha oportunidade passava pela frente da sua casa, com as janelas brancas, jardim com flores de muitas cores, porta branca, com canteiros de flores no alpendre, é então que, num certo dia, que a vejo chegar, com livros nos braços, logo que ela desaparece de vista rapidamente saí dali, não sei porque mas não queria que ela me visse, cheguei a casa, a minha casa vazia, e fria, estou estafado, vou tomar banho e depois vou dormir.

Mas a minha cabeça está diferente, já não está a funcionar a velocidade da luz, estou calmo, sinto que voltei a ter total controlo sobre a minha mente, já não te vejo em todo o lado, e se vejo já não dói, a casa já não está tão escura, já não me incomoda de ver os nossos fantasmas a percorrer os corredores, simplesmente passo através deles, tal como faço para chegar ao quarto, e me deitar, até adormecer olhando através da janela, para o céu cheio de estrelas.

Até que no dia seguinte passo a frente da casa dela, e espero, horas, e horas, e ela não aparece, parece que entro em pânico, sinto que preciso de a ver, até que oiço alguém bater no vidro do carro, e para minha surpresa, era ela, com o seu sorriso e os seus olhos deslumbrantes, ela estava a olhar para mim com um ar de espanto, então que oiço a pergunta, “o que estás aqui a fazer?” e foi aí que fiquei sem resposta, fiquei paralisado, e na minha mente só a via a ela, o resto era um enorme vazio branco, nesses segundos houve um enorme silêncio entre nós dois, estranho, mas quando arranjei palavras para dizer algo, ouvi algo a tocar, era o meu telemóvel, “bela maneira de quebrar o silêncio” pensei para mim, não atendi, “que tal um café?”, não consegui esconder a minha alegria quando a ouvi perguntar isso, e então fomos ao café, e sim, resultou num óptimo fim de tarde, gostei de a conhecer melhor, soube que ela estuda na universidade, e quer ser arquitecta, gosta de abraços mais do que beijos, gosta de ir passear pelo meio dos bosques durante o verão, gosta de musica calma e de relaxar com uma chávena de chá, gelado durante o verão, enquanto ouve música.

Nessa noite, depois de chegar a casa dela, despedimo-nos e a medida que ela se afastava os meus olhos concentravam-se mais nela, e mais até que de repente, ela acenou e sorriu, para então entrar em casa, 10 ou 20 minutos depois então fui-me embora.

São 22:58, reparo que as luzes da minha casa estão acesas, mais propriamente da minha sala de estar, estaciono o carro na garagem e apresso-me a entrar em casa, apenas para descobrir a última pessoa que esperava ver, congelei, simplesmente não me consigo mexer, até que tu vens na minha direcção com uma expressão desanimada e triste, como que arrependida, e deprimida, sinto um abraço, e sim, apesar de eu estar assim paralisado e incrédulo, tu estás a abraçar-me, mas eu não consigo fazer o mesmo, até que sussurras, ‘desculpa, sei o que fiz, sei que estava errada, senti-me mal mas quando te fui procurar estavas com alguém sentado a beber café, no lugar onde nos costumávamos sentar, e sorrias tal como sorrias quando estávamos juntos, e olhavas para ela de uma maneira diferente, e foi aí que percebi, substituíste-te e conseguiste seguir em frente sem problemas’, vejo os teus olhos cheios de lágrimas, conseguiste perceber que já não estás no teu coração, ao menos não da maneira como estavas antes, antes eras o meu coração, agora estás a tentar entrar nele, parte de mim quer deixar-te entrar, mas a parte de mim que tu vês, é a parte que abandonaste, é a parte magoada, a parte que ficou solitária e vazia, enquanto te vi partir naquela manha, portanto não, não consigo abraçar-te, é essa a razão, entretanto tu largas-me, e afastas-te de mim pedes desculpa e sais pela porta a chorar, nesse instante, eu poderia ter corrido atrás de ti, e ter te agarrado e abraçado e beijado, como aquele filme que vimos, mas não, desta vez não vou ficar deprimido e triste por te ires embora, a escolha foi tua.

É aí que reparo no telemóvel, mensagem recebida, era da Helena ela queria falar comigo, “preciso de falar contigo pessoalmente.” Cheguei ao café, como habitualmente, cumprimentei-a e sentei-me, ela de imediato mudou de expressão quando perguntei o que se passava, “o meu namorado vai voltar para cá, mas eu gosto tanto de ti, e não sei o que fazer.” Isto entrou no meu coração trespassando-o de um lado a outro, como uma bala, fiquei paralisado, em choque, eu inventei uma desculpa, e sai disparado pela porta fora, não consegui ter nenhuma reacção, não consegui dizer uma única palavra, nem consegui despedir-me, simplesmente corri para o carro, sentei-me, e fui para casa, sentei-me no sofá, acendi a lareira, fui fazer café e voltei para o sofá, enquanto vejo a lareira a arder, vejo os meus pensamentos voltarem sempre para ti, mas não me sinto mal, estranhamente sinto-me, bem, sinto-me como se nada importasse, seja a escuridão da minha casa, seja o vento lá fora, a chuva, nada disso importa, apenas tu, tu importas mais que tudo o resto.

Nisto tudo, reparei no telemóvel, tem 8 chamadas não atendidas, provavelmente todas tuas, mas enganei-me, tinha um numero desconhecido, nisto reparo que recebi uma mensagem, ‘sei que isto e inesperado, mas estou no aeroporto, não conheço mais ninguém aqui senão tu, e sim tenho saudades tuas meu grande parvo, Neuza :) ‘ não conseguia acreditar, a Neuza estava de volta, agarrei no meu casaco, corri para o carro, e fui até ao aeroporto, após entrar no aeroporto, procurei-a por todo o lado, até que por fim lá estava ela, a minha parvinha, desatei a correr para ela, e abracei-a, não consegui evitar, estava a morrer de saudades dela, após isto, ela disse-me que não tinha onde ficar ainda, e se eu podia dizer-lhe um bom lugar para ficar, um motel ou algo assim para ficar durante uns tempos, após uns minutos de pensamento, disse-lhe, ‘tu ficas comigo’, ela sorriu e disse que sim.

A viagem até casa foi espectacular, quase tínhamos dois acidentes, e eu devo ter excedido o limite de velocidade, umas quantas vezes, mas enfim, passamos o tempo todo a rir das nossas palhaçadas de antigamente, depois de chegarmos a minha casa, arrumamos a bagagem dela no quarto de hóspedes, e ela disse ‘preciso de descansar, importas-te que eu vá dormir?’ eu respondi ‘claro que não, vai lá descansar, tu precisas’ abraçamo-nos, e ela subiu as escadas, enquanto eu continuei com a lareira acesa, olhei para o relógio, são 01:41, até que levanto rapidamente ‘bolas são quase duas da manhã e não dormi nada’, mas ainda deitado, oiço alguém a vir na minha direcção, por detrás do sofá, e sinto alguém a se aconchegar a mim, era a Neuza, perguntei ‘também não consegues dormir?’ ela respondeu ‘não, apenas não queria ficar sozinha, quero companhia’ e eu vi-a adormecer no meu colo, parecia tão inocente, parecia que tínhamos voltado aos tempos em que tínhamos 16 anos, no pátio, sempre os dois juntos, sempre a rir, a brincar, até daquela vez, em minha casa, que ela adormeceu no meu colo a ver um filme, lembrei-me logo disso, mas pouco tempo depois acabei também por adormecer.

No dia seguinte, ao acordar, reparei que estava sozinho no sofá, levantei-me, ainda meio zonzo, até que descubro que ela estava na cozinha, a fazer o pequeno-almoço, sem dizer nada, deu-me um beijo na face, e pôs um chávena de café em cima da mesa, com uma torrada, e uma taça de cereais, dos meus preferidos e disse ‘come, precisas de te alimentar, e já agora, obrigado por me fazeres companhia hoje de madrugada, foste querido, eu vou procurar um apartamento para ficar, talvez tenha sorte, até logo.’

Apetecia-me dizer-lhe que não queria que ela fosse embora, mesmo nada, mas antes que pudesse ela deu-me outro beijo na face, e saiu disparada pela porta fora, eu fiquei ali sozinho com cara de parvo, e a mão encostada a bochecha, e uma tosta na outra mão, só depois me apercebo que estou atrasado para o treino, acabei o pequeno-almoço, e apressei-me para chegar ao campo de treinos, o treinador de imediato começou a puxar por nós, mas algo estava diferente, senti-me observado, e sim estava alguém a ver-nos das bancadas, não sei quem era, era um homem, já com alguma idade, com uma gabardina, e um chapéu, tínhamos um jogo treino agendado contra um dos nosso clubes-satélite hoje, enquanto tivemos de esperar que eles chegassem, o nosso treinador aproveitou para fazer alguns ajustes tácticos, pensei que ia jogar no lado direito e atrás como sempre, ate que o ouvi dizer ‘Bruno, vais jogar a médio direito, quero ver como tu te safas no ataque.’

75 Minutos de jogo e estamos a vencer por 3-0, uma vitória calma, mas mesmo assim o mister puxa por nós, oiço o mister a gritar para subir no terreno e cruzar para a área, é pontapé de baliza, O guarda rede deu curto para o defesa mais próximo, ‘fartei-me!’ e então que corro até ao defesa, apanhando-o desprevenido no seu meio-campo, fiquei com a bola, e dou por mim a correr, feito doido, com so o guarda redes pela frente, de repente oiço dois colegas meus a pedir a bola, não passei, tentei o drible, foi ai que a vi, nas bancadas, a Neuza estava a ver-me, e a apoiar-me, enquanto olhava para as bancadas, os defesas recuperaram, foi ai que vi, uma oportunidade de remate, puxei a bola para o lado esquerdo, tentei um remate colocado, a para minha surpresa, entrou!

Ora aqui está uma coisa à qual não estava habituado, aplausos, poucos minutos depois, o mister substituiu-me, e disse ‘bom trabalho miúdo, gostei, continua assim’ para meu espanto, o mister estava a felicitar-me novamente, ainda estou perplexo com isso.

O jogo acaba, vencemos por 4-0, um bom jogo, boa vitória, no balneário o treinador veio falar com a equipa, e começa a falar sobre moral e coisas do género, mas eu não o estou a ouvir, estou demasiado concentrado em porque a Neuza me veio ver, e enquanto estou afundado no pensamento oiço o treinador a gritar o meu nome, e acordo com ele a minha frente a dizer, ‘o que tens rapaz? Estas bem?’ eu aceno com a cabeça, ele olha-me de cima abaixo, com um olhar desconfiado, mas lá acreditou em mim, e para acabar o mister disse ‘vocês que se mentalizem, só vai ficar mais duro daqui para a frente, e preciso força mental e física para cumprir os objectivos propostos, agora vão lá embora e descansem, vocês merecem rapazes.’

Ao sair do balneário, ela estava a minha espera, foi a primeira a felicitar-me, ‘jogaste muito bem, gostei’ disse ela, entramos no carro, e fomos para casa, a caminho de casa, parámos num supermercado, ela queria comprar algo, escusado será dizer que eu não fazia a mínima ideia do que era, mais tarde, depois do jantar, recebi uma mensagem, era da Neuza, ‘fecha os olhos, e não te mexas, não te preocupes, não e uma partida.’ Desconfiado, fechei os olhos, e senti algo a tentar entrar na minha boca, uma colher, quando finalmente consegui saborear o que era, fiquei espantado, era o meu gelado preferido, menta e chocolate, adoro-o desde miúdo, e ela lembrou-se, quando abro os olhos, vejo-a a minha frente, com uma t-shirt minha vestida, e em calções, a olhar para mim, enquanto eu estou perplexo, e feito estatua com um sorriso parvo estampado na cara, ela pergunta ‘então, gostaste?’ mas eu não consigo falar, só consigo acenar com a cabeça, ela sorri, abraça-me, e acabamos por cair os dois no sofá, adormecendo a ver um filme, e a comer o nosso gelado preferido.

Os dias passam, e estou cada vez mais feliz por ela estar aqui, comigo, quero que ela fique comigo, não precisamos de namorar, nem casar, apenas viver juntos, levar-lhe o café à cama, e ver as patetices que eu e ela fazemos quando estamos a trocar de roupa, três semanas passaram, e sinceramente, apeguei-me a ela, não consigo imaginar as minhas manhãs sem ela, nem o anoitecer sem os filmes, e as pipocas espalhadas pela sala.

Estou a chegar do treino, e quando entro em casa vejo-a a dormir no sofá, ao lado dela está um bilhete, que diz ‘está uma fatia de pizza no microondas, e tem sumo no frigorífico.’ Dou-lhe um beijo suave na testa e puxo-lhe o cobertor, e sinceramente não tenho fome, apetece-me descansar, e sento-me no sofá, a ler um dos livros dela, até que dou por mim, com ela a acordar-me durante a noite, o relógio marca 3 da manhã, então guardo o livro, acendo a lareira, e deito-me junto a ela no sofá, até adormecermos os dois debaixo dos cobertores agarrados um ao outro. No dia seguinte, acordei sozinho, tinha um bilhete em cima de mim a dizer ‘fui ao café, volto logo, beijos Neuza’ não tenho nada de interessante para fazer, portanto fui dar uma volta, para me distrair, para tentar perceber se o que me está a acontecer e mesmo verdade, ou apenas uma miragem do que eu realmente quero, quem sabe, nem eu mesmo sei o que quero, talvez apenas um sentimento, uma sensação, apenas quero sentir-me bem, seja lá o que isso significa, e neste momento estranho dou por mim a vaguear pela cidade, a caminhar sem destino algum, acabei por chegar ao parque, é apenas a dois quarteirões da minha casa, portanto não é assim muito longe.

Sento-me num banco e penso em tudo o que aconteceu, mas só me vem ao pensamento tu, como se eu reprimisse as memórias más, aquelas que me causaram dor,

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